“Gula:
o Clube dos Anjos”, de Luis Fernando Veríssimo (Em Algum Lugar do Paraíso), lançado em 1998, é um romance da
coleção Plenos Pecados, série da Editora Objetiva composta por sete livros de
autores diferentes, tendo, como tema, os pecados capitais. Talvez não houvesse
outro autor que se encaixasse tão bem no tema: Veríssimo prova, em suas
crônicas sobre aventuras em restaurantes do mundo e sobre vinhos, que conhece
muito bem a culinária.
Narra
a história de um grupo de amigos aficionados por gastronomia que se entregam ao
prazer desenfreado proporcionado pela gula. Abel, Daniel, João, Marcos, Paulo,
Pedro, Ramos, Samuel. Saulo e Tiago, quando adolescentes, se reuniam religiosamente
no “Bar do Alberi” para apreciar picadinho de carne com farofa de ovo e banana
frita. Aqueles momentos especiais levaram Ramos a criar, oficialmente, o “Clube
do Picadinho”, que os resgataria daquela refeição popular para elevá-los, por duas
décadas, a grandes patamares da alta gastronomia, digna da Realeza Britânica, em
reuniões cada vez mais sofisticadas. Entretanto, 21 anos depois, os amigos se revelam
verdadeiros fracassados que destruíram suas famílias, fortunas e casamentos
futuros. Nada mais funcionava em suas vidas, e o Clube estava afastado pela
morte de Ramos, que cuidava de todos os detalhes das reuniões de forma
especial. Uma esperança renasce ao grupo, quando, em um casual encontro entre Daniel e Lucídio -
um misterioso homem que se revelaria um excelente chef - no restaurante de um shopping, Daniel o convida à sua casa.
Ali o Clube do Picadinho recomeçara. Entretanto, depois do ingresso de Lucídio
ao Clube, os amigos de Daniel começam a morrer a cada jantar, um por um. A cada garfada, a agonia e o suspense proveniente da sensação de "fim da linha". Agonia que acentuava o sabor dos pratos, descobriram depois. Mesmo
com a morte dos companheiros e com a desconfiança de que Lucídio é que está por
trás de tudo, nenhum deles recua. Pelo contrário, sentem que há um prazer maior
ao comer com a sensação de que a morte pode visitá-los a qualquer momento - apenas uma garfada que poderia levá-los ao túmulo. O livro
é graciosamente conduzido pelo conhecimento transmitido pelo o autor sobre
a boa culinária, do qual nomes de pratos requintados da alta gastronomia são
apresentados todo o tempo, de uma forma quase poética - e deveras erudita no que diz respeito às citações de "Rei Lear", de Shakespeare.
Este livro me recorda “O Clube dos Suicidas” de Robert Louis
Stevenson, tanto pelo título quanto pela história. Stevenson apresentada dois
personagens que conhecem um senhor que vende tortinhas. Ele se apresenta aos
dois e conta sobre o Clube dos Suicidas, onde muitos homens se encontram com a
ideia de tirar a própria vida, mas os falta coragem para isto. Eles conhecem o
Clube, sendo apresentados ao presidente deste, que explica que, em todas as reuniões,
são sorteados, com um baralho, um suicida e um assassino (o último é necessário
por causa da “covardia” dos suicidas). Depois do sorteio, não há nada a fazer, exceto,
aceitar a própria morte. As regras do jogo os assustam, mas eles permanecem no
clube para não quebrar com a promessa feita. Tais semelhanças existem em “Gula: o Clube dos Anjos”, já que os
amigos também são assassinados e não fogem da morte – pelo contrário, a
procuram! Mesmo desconfiando intensamente, a cada morte, de que Lucídio é o
malfeitor do grupo, eles não desistem de permanecer no jogo, se rendendo aos
prazeres da gula, por mais que isso custe suas vidas.
Em minha opinião, o livro resenhado
é simplesmente fantástico. Explora, de forma instigante ao leitor, os sentidos mais
profundos da mente e da alma, os prazeres momentâneos, por mais que estes possam
custar a própria vida. Também se caracteriza como uma comédia, e, por mais que
existam tantos assassinatos ao decorrer da narrativa, se encaixa perfeitamente nesta
categoria, de forma, muitas vezes, mórbida e realmente sarcástica (como exemplos
disto, boa parte das falas de Samuel e o desejo de morte dos fracassados amigos).
Possui, em certas falas, linguagem obscena, o que censura a leitura de pessoas
mais conservadoras e relativamente jovens. Destaco também que, em vários pontos
da história, é possível prever os acontecimentos e situações futuras. E não é
preciso ser um leitor experiente ou uma pessoa de raciocínio lógico apurado
para notar isto. Alguns fatos se tornam óbvios depois de pouco tempo de
leitura, como a morte dos amigos, por exemplo. Depois da segunda morte, você já
sabe que eles morrerão consecutivamente. Nesse aspecto, o suspense é falho,
entretanto, ele permanece no sentido de desfecho – qual seria? Eles são mortos,
mas, por quem? O que realmente estaria acontecendo? São questões que se revelam
ao fim do livro, mas que caem em obviedade. Um aspecto verdadeiramente amável
da obra é o requinte apresentado todo o tempo, tanto pela descrição de cômodos
da casa de Daniel quanto pelas refeições servidas em cada jantar. Mas, também
por esse motivo, é necessário certo conhecimento de gastronomia – pelo menos o mínimo.
A falta deste entendimento pode complicar a leitura, já que prejudica o sentir
da atmosfera de requinte que emana pela casa de Daniel.
Em suma, recomendo o
livro aos amantes da alta gastronomia, aos apreciadores de um suspense deveras
cômico e mórbido, além, é claro, dos fãs de grandes autores como Luis Fernando
Veríssimo! Bom apetite! Digo, boa leitura!
Marco Aurélio Prass
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