quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Luxo, moda e ostentação: futilidade à flor da pele

            De temporada em temporada, os estilistas apresentam suas coleções. Primavera, primavera-verão, outono-inverno, inverno... Coleções repletas de peças que enlouquecem boa parte da população, que consome, desenfreadamente, esta moda instantânea que surge das passarelas e já toma forma nas ruas.  Com a mesma velocidade que consomem, se desfazem das peças, na infinita busca pelo trendy, pelo admirável aos olhos alheios. Afinal, o que importa é a opinião dos outros. Pura futilidade, vidas marcadas por fatídicos vazios existenciais e por um abismo entre o ser e o ter.
            Geralmente, pessoas aficionadas por moda revelam um lado obscuro de suas personalidades, bem como uma busca pelo consumo sem limites. Evidenciam um vazio existencial inigualável sem esforço algum. Na verdade, quase escrevem isso em suas testas. Revelam-se, muitas vezes, pessoas fracas e de caráter falho, que, por faltar-lhes algo, geralmente proveniente de uma carga afetiva perdida ou frutos de relacionamentos fracassados, preenchem esse espaço em branco com grifes. Quanto vale um lenço de seda? Cinquenta reais, talvez. Quanto esses closet monsters pagam? Mil reais, no mínimo, por se tratar de um exemplar da lendária Hermès. Isso tem nome: futilidade.
            A ostentação sempre fez parte da vida em sociedade. Na Idade Média, por exemplo, o luxo era significantemente apresentado em pedras preciosas, bordadas em suntuosos e desconfortáveis vestidos, feitos para impressionar e se destacar do proletariado. Pouca coisa mudou. Explico: hoje, as pedras são os cartões de crédito, e o desconforto permanece, principalmente ao receber a fatura em sua casa. Isso sem falar da cômica competição dos sapatos altíssimos mais bonitos; mulheres que venderiam suas almas por um par de Louboutins ou Manolos. Existe um “menu” de tromboses materializadas e atraentes disponíveis em majestosas lojas de departamento. Todos, entretanto, destroem a coluna alheia. E daí? Tudo para não perder a pose,  para não descer do salto e admitir que o ser é mais importante que o ter, ou o aparentar; para não se render ao verdadeiro prazer da vida, que é o simples viver!
Existe sentido louvável, de fato, pelo ato de comprar sem parar? Talvez. Dizem que acalma, que é terapêutico. Os especialistas, no entanto, revelam que o consumo compulsivo causa sofrimento, humilhação, desvalorização própria, isolamento, além, é claro, do fator financeiro – ou a falta dele. Nada além do que se pode notar em pessoas obcecadas pela moda descartável. Sim, descartável em sentido literal. E não pense que isso é uma piada, pois eles realmente se desfazem das peças por essas estarem “fora de moda”. Detalhe: passado um mês lançamento.
A moda sempre possuiu forte carga de influência na vida das pessoas. De qualquer forma, não se pode deixar o fantasma do in e do out dominar sua vida, logo, não precisa esperar as ditaduras de uma indústria que rende bilhões com a sua falsa beleza. Afinal, cada ser humano possui livre arbítrio para decidir o que é melhor para si. Muitas vezes, o problema é tamanho que apenas um psicólogo ou terapeuta pode ajudar. Entretanto, não pense que isso é uma humilhação. É uma solução! Humilhação é destruir o próprio corpo e a própria vida para tentar ser o que não é, para ostentar uma vida aparentemente glamourosa, sendo que, quando você chega em casa, lava o rosto e tira seu Hervé Léger, percebe que é igual a todo o resto do mundo, os mortais, em sua concepção – ou os proletários da Idade Média. Pura ilusão! Falando em Hervé Léger, certa vez, um amigo disse:
- É só um pedaço de pano!
Sim, meus caros, um pedaço de pano. A diferença é que este curto retalho ornamental custa aproximados mil duzentos e cinquenta dólares. E, é claro, milhares de libras esterlinas da sua dignidade. Vale a pena?

Marco Aurélio Prass

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